8.4.14

A leitora (1)

Ainda hoje, em alojamentos de quarto e pequeno-almoço ou hotéis de beira-mar, uma estante cheia de livros esquecidos fazia as delícias de Madeleine. Passava-lhes os dedos pelas capas salpicadas de água salgada. Separava folhas que o ar do mar tornara peganhentas. Não sentia qualquer atracção por livros de mistério nem policiais de bolso. Era a encadernação abandonada, a edição de 1931, já sem capas, de um livro da Dial Press, cheia de marcas de chávenas de café, que trespassava o coração de Madeleine. Os amigos podiam chamá-la da praia, a grelhada de peixe podia estar pronta, que Madeleine sentava-se na cama e lia um bocadinho para que o livro triste se sentisse melhor (…) / E no entanto havia alturas em que a preocupava o efeito que aqueles livros velhos e bolorentos estavam a ter sobre ela.

[Jeffrey Eugenides, O Enredo Conjugal (2011), tradução de Francisco Agarez]