21.10.14

Sem ofender

«Por quanto tempo poderemos amá-los, a esses jovens, sem os ofender? Esta alegria de noutros corpos sermos  ainda alguma juventude, como guardá-la, sem a degradar?». Não tenho ainda a idade que Eugénio tinha quando escreveu este poema, nem gosto de rapazinhos, mas no mais é tudo exactamente assim: como amar e «guardar» sem degradar nem ofender? Como é que isso se faz, a meio da vida?

O largo conhecimento

José Relvas, que proclamou a República em Lisboa, decidiu afastar-se da política a seguir a 1915, devido ao «largo conhecimento dos homens» que tinha adquirido. Regressou uns anos depois, mas sem sucesso. Eu afastei-me de tudo por causa desse «conhecimento». E esgotei há muito o tempo dos regressos.

20.10.14

Off

Um cão

Habituado à contenção do meu comportamento, de vez em quando fico chocado com o meu gosto, incontrolável como um cão raivoso.

A leste

Dizem-me: «eu conheço-te». E depois mostram-se completamente a leste.

De tudo e de nada

O desafio desta quinta década: não ser cínico, apesar de já saber muitíssimo bem o preço de tudo e o valor de nada.

19.10.14

Meteorologia (2)

when the thunder storms start
increasing over the southeast
and south central portions
of my apartment, I get upset


[Tom Waits]

Meteorologia (1)

Completamente aéreo com leituras e outras fadigas, saí de casa vestido como se estivesse frio, ou chuva, e dei com um Domingo de Verão. Tive preguiça de voltar atrás, e andei a tarde toda dessincronizado, extemporâneo, desconfortável. Faz sentido.

Good better best



«Nice.» I want to be nice. «Fine.» Those are not the adjectives I like to use. The Lord gave us abilities - he requires that we use them: «Good. Better. Best. Excelsior! Higher!» Only excellence can glorify the Lord. Vulgarity is, in essence, blasphemous.

[Greta Gerwig, em Damsels in Distress (2011), de Whit Stilman]

18.10.14

Um outro tom

Então ouves, ditas com simpatia, as mesmas exactas palavras que há anos te disseram com inexcedível brutalidade. Não aprendeste nada, escolheste apenas um outro tom.

17.10.14

Últimas

Carver dizia que um conto por vezes nasce de uma frase que ouvimos a desconhecidos, uma frase como: «Estas foram as últimas férias que nos estragaste».

16.10.14

Uma alternativa selvagem



Ou então fazes de Knausgaard e contas tudo, não como vingança mas como violência, uma sangria benéfica contra os humores nefastos, um álibi sofisticado, uma alternativa selvagem.

Micah

«Estou a arrumar os meus pesadelos e depois vou à minha vida», despediu-se ele.

De um para zero

«You know who I am», canta Cohen na canção homónima, talvez a primeira canção dele que eu ouvi. «I am the one who loves changing from nothing to one». De zero para um: ainda acredito nisso. Mas de um para zero, isso não me peçam.

15.10.14

As mulheres que (2)

After all I wrote these songs to myself and to women several years ago and it is a curious thing to be trapped in that original effort, because here I wanted to tell one person one thing and now I am in the situation where I must repeat them like some parrot chained to his stand, night after night.

[L.C.]

As mulheres que (1)

Nos oitenta anos de Cohen, muita gente lembrou as mulheres que estão na origem das canções, as suas companheiras mais estáveis, Marianne e Suzanne E., sobretudo, mas também Dominique, Rebecca e Anjani. Mas isso é injusto para com as mulheres que ele desejou em vão (Suzanne V.), de quem levou tampa (Nico), com quem teve casos fugazes (Joni) ou encontros pouco entusiasmantes (Janis). Ou aquelas com as quais não se passou nada de nada (como Barbara e Lorraine, as raparigas adormecidas de «Sisters of Mercy»). Ou as que não aparecem explicitamente em canção nenhuma.

Toda a gente sabe



Everybody knows that the boat is leaking
Everybody knows that the captain lied
Everybody got this broken feeling
Like their father or their dog just died

14.10.14

Publicidade

Há mais de vinte anos que tentam sem sucesso vender-me coisas que não quero, de que não preciso, algumas benéficas, outras nocivas, algumas indiferentes, todas elas alheias ao meu gosto e à minha necessidade, o optimismo, o automóvel, o convívio, a esquerda, o fingimento, o fato-gravata, o cinismo, os bons sentimentos, o acordo ortográfico, a maledicência, os cunhados, o asco, as redes sociais, já disse que não quero, não estou interessado, terei de deixar um sinal a dizer publicidade aqui não?

13.10.14

Evangelhos sinópticos (2)

Mas qual das (três? quatro? cinco?) histórias é o meu Evangelho não-sinóptico? Qual delas se afasta das outras? Qual delas é a mais poética ou a menos confiável? E uma delas não será antes um Evangelho apócrifo?

Evangelhos sinópticos (1)

Os três primeiros Evangelhos canónicos são chamados «sinópticos»: quando «vistos conjuntamente», têm os mesmos episódios, a mesma estrutura, a mesma linguagem, tudo muito parecido no essencial. Depois, há um quarto Evangelho, que não conta exactamente o mesmo nem da mesma maneira, e também por isso tem a fama de ser o mais «poético», o que talvez queira dizer o menos confiável.

Do purgatório

Jacques Le Goff conta que já não sei qual teólogo abominava a ideia de Purgatório; que os bons se salvassem e os maus fossem castigados, era justo; mas que convivessem num mesmo estado os mais-bons-que-maus e os mais-maus-que-bons, isso era uma ideia demoníaca.

11.10.14

Todos juntos









De Jessica Paré alguém escreveu que tem o beicinho de Brigitte Bardot, os olhos e as maçãs do rosto de Liv Tyler e o corpo de Jayne Mansfield. Dois elogios exagerados, e um duvidoso, mas que, todos juntos, fazem sentido.

Geração

Num zangado e brilhante panfleto contra a sua geração, Guy Hocquenghem disse tudo o que há a dizer sobre esse conceito patético: «Génération: pendant des années, je m'étais juré à moi-même de ne pas prononcer ce mot; il me répugne d'instinct. Je n'aime pas l'idée d'appartenir à ce bloc coagulé de déceptions et de copinages, qui ne se réalise et ne se resssent comme tel qu'au moment de la massive trahison de l'âge mûr. On ne devient génération que lorsqu'on se rétracte (...)».