30.9.14

Como é que eu ia saber

Thomas Pynchon foi finalmente adaptado ao cinema: Paul Thomas Anderson estreia em breve Inherent Vice, que se prevê uma gloriosa maluquice (o cineasta citou os irmãos Zucker como influência). Têm corrido rumores de que o eremita fará um cameo, a primeira imagem em movimento que teríamos de Pynchon, de quem quase só se conhece uma fotografia dos tempos de estudante. Anderson não confirma nem desmente que o romancista apareça nalguma cena. Numa entrevista ao New York Times, comentou: «Mesmo que ele entrasse, como é que eu ia saber?».

28.9.14

Jean-Jacques Pauvert 1926-2014











Lembram-se deles? Tinham um conhecimento, um gosto, uma coerência, uma coragem. Chamavam-se «editores».

24.9.14

Nunca vamos gostar uns dos outros

As pessoas de esquerda estão sempre a dizer: «Queremos uma sociedade harmoniosa». Naaão... «Queremos viver juntos». Naaão.... Coabitemos, com respeito. Nada de paixões angélicas [ou «gélidas»?]. Nunca vamos gostar uns dos outros.

[Fabrice Luchini, entrevista à France 2, ao minuto 3.42]

Gemma Bovery

21.9.14

Escondida nas minhas mãos

Escondidos nas minhas mãos
os teus seios pequeninos
são o ventre às avessas de pardais
caídos que respiram ainda.

Quando te moves ouço
o ruído de asas que se fecham
e de asas que desistem.

Fico sem palavras
porque estás deitada a meu lado
porque as tuas pestanas são o esqueleto
de minúsculos frágeis animais.

Tenho medo do tempo
em que a tua boca
me considere um caçador.

Quando me chamas e tão perto
me dizes
que o teu corpo não é belo
quero ordenar
às bocas e aos olhos ocultos
das pedras da luz da água
que testemunhem contra ti.

Quero que te
entreguem
como de uma caixinha
o verso trémulo que é o teu rosto.

Quando me chamas e tão perto
me dizes
que o teu corpo não é belo
eu quero que o meu corpo e as minhas mãos
sejam lagos
onde tu olhes e rias.


Leonard Cohen [versão PM]

Cohen aos oitenta


19.9.14

Em matéria de felicidade

Em matéria de liberdade sou pela conquista. Em matéria de felicidade sou um convulsionário.

Chamada perdida

Recebo uma chamada no telemóvel, e número que aparece é o do meu telefone fixo. Fico desconcertado, porque não há ninguém em casa, e além disso esse telefone está desligado. Atendo. É uma mensagem publicitária, gravada, da minha operadora de telecomunicações. E ocorreu-me, por instantes, uma conversa entre Bill Pullman e Robert Blake em Estrada Perdida. Blake, maquilhado de assombração, encontra Pullman numa festa e diz que se conheceram em casa dele: «não se lembra?». O outro não se lembra. Blake declara então: «As a matter of fact, I'm there right now». E depois, estendendo um telefone portátil: «Call me». Pullman, a medo, liga para casa. E do outro lado da linha Blake atende o telefone. À época, essa cena assustou-me muitíssimo, por razões que de todo desconheço. Lynch, bem sei, tem essa capacidade de comunicar com os nossos pavores inconscientes. Por isso, quando o telemóvel tocou esta noite e era da minha casa, eu não imaginei um intruso ou um assalto: temi, de forma cinematográfica e absurda, que do outro lado estivesse eu.

União

«Better together» é uma bela fórmula: uma decisão, não um impulso. A União continua.

18.9.14

Yes or no?














Não sou escocês nem inglês, portanto não é assunto meu. É verdade que, enquanto anglófilo, tenho alguma pena que se desfaça um «Reino Unido» que existe há três séculos. Até porque não sei se a Escócia é de facto um país diferente, e um país viável. Mas os independentismos são como os divórcios: acho sempre bem, porque uma união que não agrada não deve manter-se. Além disso, diverte-me ver os eurocratas incomodados com a incrível persistência do conceito de nação. Uma maçada, exclamam, enquanto debicam tofu em Estrasburgo.

13.9.14

Tocha



Com Dummy, faz agora vinte anos, descobri que a electrónica também é uma emoção. E que as colagens e programações não impedem a intensidade desamparada de uma canção. Uma canção que arde noite dentro como uma tocha.

9.9.14

Com minúscula

Raramente quero mal às pessoas que me fizeram mal, justamente porque me esclareceram acerca do mal, o mal com minúscula, quotidiano e trivial e constante: a evidência mais importante que conheço.

Reversível

Quando alguém desaparece da nossa vida, podemos argumentar que se tratava de uma pessoa desinteressante, desleal, dispensável. Mas isso, a ser assim, talvez também se aplique às pessoas que ainda estão nas nossas vidas. E a nós, que estamos nas vidas delas.

8.9.14

Da igualdade



Além de ser um bom falso documentário e um curioso documento sobre o sangue e a piedade, Mistaken for Strangers (2013) é uma bofetada nas teorias da igualdade. Dois homens, quase da mesma idade, com os mesmos pais e a mesma educação, chegam a vidas opostas. Um deles, o mais velho, é atraente, carismático, talentoso e bem-sucedido; o mais novo é feio, irresponsável, preguiçoso e fracassado. Matt Berninger, o vocalista dos National, deixa que o irmão, Tom Berninger, acompanhe a banda em digressão, e até que os filme e entreviste. Para que Tom tenha um emprego, saia de casa, seja um homenzinho. Mas Tom é uma desgraça ambulante, e o documentário é basicamente sobre ele ser uma desgraça. Tom e Matt compreendem a dialéctica daquele projecto melindroso, paternalista, às vezes patético. E ambos ensaiam a reversibilidade das situações, a hipótese de ter acontecido tudo ao contrário. Talvez as coisas pudessem ter sucedido de forma diferente, de facto. Mas Tom sempre soube que Matt é que estava votado ao triunfo, sempre se soube desigual a ele, com a crueldade das evidências infantis, ou genéticas.

Gosto dele

Uma das personagens, um psicanalista, descreve assim o protagonista do último Allen: «Like Freud, he is not seduced by childish thoughts. He is a very unhappy man. I like him».

WA

Vou ter saudades do Woody Allen anual, do genérico com letras brancas em fundo preto, do jazz dos anos trinta, dos apartamentos e mansões, das jovenzinhas núbeis e dos diálogos com verve, da ligeireza e do classicismo, da cultura usada como citação e da leve melancolia. Vou ter saudades de ir ver um Allen todos os anos, os Allens bons e até os maus, que nunca são maus. Vou ter saudades dos filmes de Woody Allen. E de ir vê-los com o meu pai.

O gosto da beleza

Tal como Rohmer, Woody Allen tem «o gosto da beleza». Tal como Rohmer, e com bastante mais intensidade, Allen sabe que a beleza é um privilégio, e que apenas uns quantos privilegiados têm acesso àquelas casas e àquela elegância, a alguma daquela alta cultura, à alta roda. O «gosto», claro, é uma questão de classe e de estatuto; mas «a beleza», às vezes, também é.

Diário de preces

7.9.14

Deus e Jefferson

AIDAN: But what about my dream? I mean, doesn't God believe in my pursuit of happiness?

RABBI TWERSKY: No. That's the Declaration of Independence. Thomas Jefferson believed in your happiness. God wants you to provide for your family.

[uma tirada coeniana em Dava Tudo Para Estar Cá (2014), de e com Zach Braff]

4.9.14

Cuidado com o que desejas
















Em Stalker, um lugar misterioso chamado «Zona» faz com que os desejos de cada pessoa se concretizem, mesmo que isso seja afinal destrutivo; em Solaris, o planeta homónimo aproveita-se das memórias dos humanos que dele se aproximem e faz com que as memórias de cada um ganhem vida, gerando mesmo «réplicas» humanóides de gente que os humanos outrora conheceram. Com Stalker aprendi a diferença entre o que queremos e o que precisamos. E com Solaris soube que nunca nos libertamos das imagens do passado. No princípio de Solaris, Kris Kelvin [o actor lituano Donatas Banionis, que morreu esta semana] queima uma série de mementos e de recordações. Mas quando é enviado para a órbita do planeta Solaris, «encontra» a sua mulher, que já morreu, e o pai, que ficou na Terra. É preciso ter cuidado com o que queremos, e cuidado com o que lembramos, porque o desejo e a memória têm maneiras de acontecer, ainda que maneiras artificiais, questionáveis, catastróficas. Achava que não me tinha esquecido disto, mas esqueci-me durante uns tempos, até que recentemente voltei a essas órbitas nocivas. Na impossibilidade de acabar com recordações e desejos, ao menos que se evite frequentar órbitas perigosas e outras Zonas, entidades que conhecem bem a nossa cabeça e nos oferecem a crueldade do falso conforto.

3.9.14

Ulisses

Mesmo quando tenho uma certeza absoluta, sem precisar da linguagem, as palavras dão-me sempre a volta, as palavras iludem-me, enganam-me, desfazem as certezas, prevalecem sobre os dados imediatos da consciência. Razão tinha Ulisses, que tapava os ouvidos para evitar palavras que destruíssem a sua liberdade.

1.9.14

Porto