30.7.14

Depois de amanhã nas livrarias

29.7.14

Contrabando

Mal saiu o Lei Seca, ofereci-lhe um exemplar autografado, ou antes, dedicado. O livro tem páginas e páginas sobre ela, tudo o que há de luminoso no livro vem dela. E embora não nos víssemos há muito tempo, foi como se nos tivéssemos encontrado na véspera. Recebeu o livro como é seu costume: com a melancolia educada de quem recorda, sem nenhum espalhafato, experiências comuns, conversas noite dentro, graças que só os dois entendemos, agora tem a tranquilidade que à época tinha perdido, mas os mesmos olhos verdes magoados e vivos, que afasta por uns segundos enquanto acondiciona o livro como se fosse contrabando.

Contravida

(...) O manuscrito chamado «Os Factos» tornou-se então uma terapia e uma arqueologia biográfica. Na introdução, Roth confessa que quis mostrar que é de facto um «escritor autobiográfico», mas não o tipo de escritor autobiográfico que os outros dizem que ele é. Para esse efeito, tentou recuperar, inalterados, certos «momentos originais», sem disfarces nem mentiras ficcionais, ainda que estivesse bem consciente de que todos os «factos» são uma imaginação daquilo que realmente aconteceu. Tentou fazer «jogo limpo», sentir de novo as emoções que o levaram à escrita, e apenas alterou alguns nomes, para proteger as pessoas mencionadas.

No entanto, teve, ou disse que teve, bastantes dúvidas sobre toda aquela exposição pessoal. (...) E escreve a uma das suas personagens, Zuckerman. Pergunta-lhe se deve publicar o livro E pede: «Sê franco».

(...) Zuckerman responde. É esta refutação que faz de «Os Factos» uma autobiografia genial. Porque Zuckerman é uma personagem, um alter-ego, e defende a ficção contra a não-ficção. «Se eu fosse tu (o que não é impossível) (…)», diz, a certa altura; se eu fosse a ti, afirma, desistia desse projecto. É sem dúvida muito interessante escrever sobre a vida, e sobre como escrever sobre a vida, e tudo isso. Mas, garante Zuckerman, Roth precisa da imaginação, da dramatização, da manipulação. É no romance que ele é brilhante, complexo, memorável. Na autobiografia, nem por isso. «És o menos conseguido dos teus personagens». Porque ao escrever «os factos», diz a criatura ao criador, o artista cai nas armadilhas da «franqueza» e da fraqueza. Idealiza o passado, procura a reconciliação, tem bons sentimentos, faz-se mesmo passar por «boa pessoa». O que contrasta de forma chocante com um Philip Roth que se notabilizou por causa da raiva, da lascívia, da bílis. A autobiografia não-ficcional domestica-o, gera inibições, autocensuras, defesas, incluindo aquela defesa que é pedir, por descargo de consciência, a opinião de uma personagem.

Zuckerman diz a Roth que a autobiografia é um contra-texto, uma «contravida». Um texto contra os romances, claro, mas também contra a vida, contra a veracidade crua da vida e dos factos. Porque «os factos? são «mais obstinados, incontroláveis e inconclusivos» do que Roth quer que acreditemos. Por isso, Zuckerman aconselha: «Não publiques».


[a minha última coluna antes das férias no Expresso diário]

O círculo

















The Circle, o penúltimo romance de Dave Eggers, não é nenhum 1984, mas cunha algumas tenebrosas palavras de ordem dignas de Orwell. Por exemplo: «All that happens must be known»; «Secrets are lies» ou «Privacy is theft». Chamam a isto uma distopia. Eu chamo-lhe Lisboa.

Uma ideia

Espinosa não disse que o amor é a alegria acompanhada de uma causa exterior: disse que «o amor é a alegria acompanhada da ideia de uma causa exterior». Que o amor seja uma manifestação da alegria é evidente; que dependa de uma causa, percebe-se; mas o luso-holandês acrescentou essa magnífica subtileza: a ideia de uma causa. Além de uma «emoção», o amor é uma «ideia»: uma ideia sobre a causa do amor, justamente. Por isso é que experimentamos tantas discrepâncias e decepções: porque a alegria é uma emoção, e não está sujeita às regras da veracidade; ao passo que o amor é uma ideia, e, como todas as ideias, é muitas vezes uma falsidade.

Nunca mais

B: The happiest time? (…) This must be the happiest time: half of being adult done, the rest ahead of me. Old enough to be a little wise, past being really dumb… (…) Enough shit gone through to have a sense of the shit that’s ahead (…). What I like most about being where I am is that there’s a lot I don’t have to go through anymore (…).

[Edward Albee, Three Tall Women, 1994]

28.7.14

Hipotético ou condicional



O desolado e magnífico álbum de estreia dos Low, de 1994, chama-se I Could Live in Hope. Uma afirmação hipotética ou condicional?

Buñuel e o papelinho

Buñuel tinha visto tanto cinema, e tão estereotipado, que durante qualquer projecção, ao fim de uns minutos, escrevia num papelinho qual seria o desfecho da fita. No fim da sessão, o papelinho e o desfecho coincidiam. Os amigos de Buñuel achavam isto hilariante. Eu também já experimentei esse truque, fora do cinema. Bateu igualmente certo. Eu achei tristíssimo, mas dizem-me que serviu de divertimento a terceiros. Ao menos isso.