19.11.14

Prévost

Encontro esta citação de Prévost, abade incorrigível, a propósito de uns seus amores funestos na Holanda: «Foi o desgraçado fim de um compromisso demasiado terno». Tudo bate certo, o fim e a desgraça, até aqui a frase é banal, mas sobretudo a ideia (fradesca?) de um «compromisso», e de uma «ternura» em «demasia». Uma ternura que Prévost percebe que está mais ligada à desgraça do que ao compromisso. Não conheço nenhuma holandesa, mas aqui é o mesmo.

Aquilo que esperávamos



E chega o momento em que todas as pessoas fazem aquilo que esperávamos delas, pelo menos desde que aprendemos a esperar o pior das pessoas: «Judas Brutus Quisling time has come to do / What's expected of you».

18.11.14

Intermediários

Num ensaio sobre Maurice Blanchot Critique, Yun Sun Limet lembra que Blanchot escreveu sobre literatura procurando quase sempre um «descentramento» e uma escolha de «intermediários», fossem críticos ou biógrafos: «René Char via Roger Mounin, a leitura de Hölderlin que passa pela leitura de Heidegger, Baudelaire por Sartre, Goethe por Eckermann, Kafka por Brod, Proust por Feuillerat, Rosseau por Starobinski, Mallarmé de novo por Georges Poulet, Heráclito por Clémence Ramnoux, Kafka de novo por Marthe Robert (...)». Foi isso que mais me interessou quando descobri Blanchot, mas não descobri logo que tinha sido isso, porque, à época, esse método me interessaria bastante pouco, ao passo que hoje me interessa mesmo muito. Duvido é que o recurso a «intermediários» signifique um «descentramento», pelo menos para todos nós que não somos Blanchot.

1959















Ele tem um pé no passeio, onde estão todos os outros, e um pé na estrada, como se estivesse de saída. Parece o mais novo naquela foto tirada pelo fotógrafo italiano Mario Dondero, uma das mais célebres da literatura contemporânea, e parece não fazer bem parte daquilo. Chamava-se Claude Ollier, e morreu o mês passado, aos 91 anos. Os outros eram Alain Robbe-Grillet, Claude Simon, Claude Mauriac, o editor Jérôme Lindon, Robert Pinget, Samuel Beckett e Nathalie Sarraute, os autores do chamado «Nouveau Roman», aqui à porta das Éditions de Minuit, em Paris, no outono de 1959. (...)

Nunca li uma linha de Claude Ollier, sempre pensei em Ollier como o homem da fotografia, e que eu só conhecia da fotografia. Mas nos últimos anos fui descobrindo alguns dos outros escritores, quase todos entretanto esquecidos ou menosprezados. E parece-me que Robbe-Grillet tinha razão quando, em «Pour un Nouveau Roman» (1963) protestava contra as simplificações, os erros, e os mal-entendidos. (...)

[hoje, no Expresso diário]

Papel de parede

Enquanto te declarares responsável de tudo aquilo que acontece, tudo o que te acontecer é culpa tua. Tantos anos nisto, mais parece comodismo do que masoquismo. Agora aprendeste, não é sem tempo. Encontraste a tua dignidade, que mal conheces. Gottfried Benn avisou: enquanto usarmos a nossa pele como papel de parede não podemos vencer.

17.11.14

But one concern

Fogey

«The engagement is announced between Benedict, son of Wanda and Timothy Cumberbatch of London, and Sophie, daughter of Katherine Hunter of Edinburgh and Charles Hunter of London». Assim, à antiga, num jornal em papel, de modo discreto e elegante, e fugindo como das víboras à cultura das celebridades, dos «exclusivos», das «redes sociais», o actor inglês Benedict Cumberbatch anunciou o seu casamento. «The engagement is announced of», que fogey, que estilo.

Vénus

















Entretidos com o rapazinho que parece uma rapariguinha, ou com a actriz com ancas, ou com a mulher barbada, ou com a celebridade rabuda, esquecemos o caso mais interessante de todos, o caso de Myla Dalbesio: uma modelo da fascizante Calvin Klein que, não sendo «gorda», é certamente volumosa; uma manequim que troca as figuras à Giacometti pela Venús de Willendorf.

16.11.14

Ela isto, ela aquilo

Parece-me que Bonnie «Prince» Billy nunca tinha tocado em Portugal um repertório tão centrado na temática amorosa. Canção após canção, ele vai dizendo «she» isto, «she» aquilo, o humorismo que também usa dando lugar a uma intensidade sisuda, mas não deprimente. O concerto do São Luiz foi em formato de quinteto: contrabaixo, bateria e três guitarras (uma delas de Matt Sweeney). Will Oldham, de seu nome civil, é o menos glamouroso dos artistas. Careca e de barba hirsuta, traz para palco um saco de pano com folhas soltas e a harmónica, demora-se em afinações, conversa com os músicos, puxa várias vezes as calças para cima, bebe minis, tem tiques desconjuntados com a perna, e dá uns urros ao género de vaqueiro demente. Quando não conhecemos determinada canção, não adivinhamos facilmente o que se segue, os versos têm uma imagética bizarra, estruturas anómalas e rimas imprevistas, e às vezes há uns «recitativos». «I See a Darkness», talvez a obra-prima de um catálogo vastíssimo, veio antes dos «encores», foi submetida ao tratamento dylanesco de mudanças de velocidade e de ânimo, e ficou menos estarrecedora, mais animada, mas ainda assim reconhecível, e estrondosa. Logo a abrir tínhamos tido as minhas duas interpretações favoritas da noite, «Teach Me To Bear You» e «My Home Is the Sea», momentos vigorosos de confessionalismo obscuro e de poesia ruidosa. Que mais se pode pedir?

O captain














What power he has, only I know
Now I have let my captain go

15.11.14

Um autocolante

Não conheço nenhuma filosofia tão sucinta e tão justa como a deste autocolante: «Do no harm but take no shit». É o meu lema de 2014.

Junção

Uma aluna do Instituto de Odivelas contesta assim a integração da sua escola no Colégio Militar: «A junção com rapazes não faz de nós melhores pessoas». Eu chamo a isto um ensino de qualidade.

14.11.14

Hoje nas livrarias

















Última Semana, antologia de Hugo Williams (Inglaterra, 1942), é o sétimo título da colecção de poesia da Tinta-da-china.